Departamento de Endocrinologia Feminina e Andrologia


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Modulação Bioidêntica

003.09.2013 Andrologia

Não é de hoje que se busca a fórmula da juventude, da beleza e do corpo perfeito. Mas envelhecer é um processo natural, faz parte do ciclo da vida. Fisiologicamente falando, o ser humano foi feito para nascer, procriar e morrer. Deveria ser assim, só que viver pouco mais de 30 anos é inconcebível. Queremos muito mais, e temos do nosso lado avanços significativos da ciência e da medicina, que tentam desvendar, detalhadamente, a engrenagem do sistema mais complexo do universo: o corpo humano.

Grosso modo, o funcionamento parece ao de uma casa. À medida que o tempo vai passando, há um desgaste nas estruturas. Conforme o uso e a interação com as intempéries e o ambiente, a qualidade da casa irá diminuir se não houver uma manutenção sistêmica. Isso vai gerar ônus lá na frente. Assim também é com as pessoas?, compara o médico Eduardo Faria, mestre em endocrinologia e pós-graduado em fisiologia hormonal. Segundo ele, a engenhoca perfeita inclui peças que, de uma forma ou de outra, estão sempre se interagindo. Nada funciona sozinho. Essa interligação e todo o comando do metabolismo são feitos pelos hormônios ? hoje são conhecidos pelo menos 234 tipos. ?Eles trabalham como músico em uma orquestra harmoniosa, não como solista. A música não para?, exemplifica. Quando começa o declínio hormonal, entretanto, a orquestra passa a apresentar falhas. ?Nascemos com potencial máximo e, por volta dos 20, 25 anos, tudo dentro do corpo está na plenitude. A partir daí, o certificado de garantia expira e, assim, começa o processo de decadência, incluindo o declínio da produção hormonal. Com os avanços da ciência e da medicina, a expectativa de vida aumentou, mas as glândulas que produzem hormônios não sabem disso. De fato, as pessoas estão vivendo mais. A questão é se estão vivendo bem esse mais?, destaca o médico. Ele explica que, em geral, as glândulas começam a produzir menos a partir dos 30 anos, mas o momento exato vai depender de fatores impactantes, como genética e estilo de vida. Portanto, esse processo é muito individual.

De fato, o envelhecimento é inevitável, mas é possível que ele ocorra com mais qualidade e com saúde. É o que defendem médicos adeptos da modulação hormonal, conjugada com hábitos saudáveis ? dieta balanceada, exercícios físicos regulares, administração do estresse, otimização do sono, além de não fumar. Aliás, eles não falam em doenças, só em saúde. A meta é que cada pessoa fique saudável em sua plenitude, com a orquestra hormonal equilibrada, em níveis considerados ótimos. Mas essa modulação só pode ser feita com prescrição médica, depois de exame clínico detalhado e de uma bateria imensa de exames, incluindo dosagens sanguíneas, ultrassons, densitometria óssea (mede a densidade mineral óssea) e bioimpedância (avalia a composição corporal, inclusive o percentual de água), entre outros. A prescrição será personalizada, conforme a necessidade da pessoa (um hormônio que estiver abaixo do ideal de determinada faixa etária poderá ser reposto com um bioidêntico, que é exatamente igual ao produzido pelo corpo).

O problema é que muitas pessoas, atrás de falsas promessas de retardar o envelhecimento, buscam tratamentos hormonais com médicos inabilitados para tal e até mesmo nutricionista ou personal trainer. Mas, conforme o Conselho Federal de Medicina (CFM), não há comprovação de que terapias com hormônios influenciem no envelhecimento ou até mesmo promovam emagrecimento. Por isso, a prática é condenada pelo CFM. A proibição está clara na resolução 1.999/2012, publicada no Diário Oficial da União em 19 de outubro do ano passado. Além de hormônios, está vetado o uso de vitaminas e antioxidantes, do anestésico procaína e do ácido etilenodiaminotetracético (EDTA).

?É proibido o uso dessas substâncias para terapias antiaging, para bombar, alterar a masculinidade ou a feminilidade. Quem usar vai ter mais complicação do que resultado. Vende-se uma ilusão em cima de uma ou outra experiência, sem qualquer respaldo científico?, diz João Batista Gomes Soares, presidente do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRMMG), que representa o CFM no estado. Ele lembra que há muitas pessoas que não tomaram esse tipo de medicamento e têm corpo bem definido ou não aparentam a idade real. ?O antienvelhecimento é mito, uma especulação. Por trás disso, existe toda uma indústria estimulando o consumo. O problema é que as propagandas sempre falam de benefícios, mas nunca abordam os efeitos colaterais. O estrógeno, por exemplo, é vendido como medicamento para melhorar a pele e a libido, mas não divulgam que ele pode provocar câncer?, alerta.

Aqui vale um parênteses para esclarecer que os adeptos da modulação hormonal bioidêntica não visam ao antienvelhecimento, e, sim, à longevidade saudável. O reumatologista André Luiz Machado vê a resolução como uma atitude de cautela, devido ao excesso de prescrições, mas critica a falta de critério. ?A forma como foi feita (a norma) é atípica, o que me leva a crer que haja outras intenções por trás. Também existe todo um lobby da indústria farmacêutica que, a meu ver, se sente ameaçada. A modulação não é o vilão. Basta ver os benefícios?, afirma o médico, que se submete a essa terapia há seis anos e não para de colher bons resultados.

?A ideia surgiu para ter qualidade de vida na velhice. Decidi mudar totalmente meus hábitos. Depois de vários exames, fiz uns ajustes nos hormônios, primeiramente de testosterona. Na verdade, é preciso fazer um processo global, e não só físico?, explica André Luiz, hoje com 51 anos. Na época, ele pesava 106 quilos, o que era considerado sobrepeso para 1,80 metro de altura. Assim que colocou na cabeça que precisava mudar, melhorou a qualidade da alimentação, iniciou atividades físicas, reaprendeu a andar, respirar e dormir e passou a ingerir mais de 3 litros de água por dia. ?Descobri que minha obesidade estava ligada ao fato de dormir mal. Com isso, ficava ansioso e comia mais. Era um círculo vicioso.?

Ao modular a testosterona, ele conta que passou a ter mais disposição e energia para pensar, se exercitar, suportar dificuldades e ter paciência. ?Tenho mais prazer em viver, trabalhar e fazer esporte e mais disposição para acompanhar minhas filhas. A relação com minha esposa também melhorou. Os ganhos não são apenas no aspecto físico: mudei assustadoramente nas minhas relações interpessoais. É uma disposição com libido. Tudo começa a ter sabor?, destaca o médico. Mas ele alerta que as pessoas têm que tomar cuidado porque existe muito mito atrás disso. ?Só o hormônio bioidêntico não funciona. Não existe nenhum milagre. Os ganhos vêm de um conjunto de fatores, como comer e dormir bem, administrar o estresse, fazer exercícios. Até caminhar de forma correta influencia?, diz. Em um ano e meio, ele emagreceu 25 quilos. Hoje se considera com o mesmo vigor que tinha aos 42 anos.

Uma contadora de 58 anos, que preferiu não se identificar, decidiu procurar a modulação hormonal bioidêntica para manter a saúde e, consequentemente, evitar doenças. O tratamento começou há nove anos. Atualmente, ela faz controle de estriol, estradiol ? hormônios essenciais, que atuam em diferentes funções vitais ? e progesterona. ?Antes, eu me sentia muito cansada, gripava muito e meu humor era instável. Com a terapia, eu passei a me sentir mais bem-disposta e com energia de sobra, além de ter um sono revigorante. Também me ajudou a passar pela menopausa, sem ter qualquer incômodo, e a emagrecer?, afirma. Ela também mudou a alimentação, inclusive com acompanhamento de nutricionista, e passou a fazer atividades físicas regulares. ?Em termos de disposição, me sinto com menos de 30 anos. Pelo lado da aparência, as pessoas me dão no máximo 45. Na aula coletiva da academia, sou a mais velha, mas, com meu pique, dou um banho nas meninas de 20, 25 anos. Com certeza, não vou largar esse tratamento nunca.?

O hormônio do crescimento (growth hormone) também está no alvo da discussão, com a promessa de aumentar a massa muscular, perder gordura e até mesmo amenizar rugas. Na verdade, o GH é um complexo de sete hormônios responsável por muitas funções importantes, como comandar o metabolismo e todas as ações de reparo, regeneração e restauro, auxiliar no sistema imunológico e gerenciar a gordura corporal. Na infância, o nível da substância é bem alto, e a queda começa a ocorrer por volta dos 16, 17 anos. Segundo a vice-presidente do Departamento de Endocrinologia Feminina e Andrologia da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Ruth Clapauch, a reposição na fase adulta, sem necessidade, pode provocar diabetes (ele estimula o metabolismo da glicose), pólipos intestinais e câncer hematológico. Em grande quantidade, pode causar crescimento das partes moles (como cartilagens), doença conhecida como acromegalia.  

A endocrinologista explica que a reposição hormonal é válida e permitida apenas em caso de deficiência, mas sem que haja contraindicação. ?Quando a substância é reposta sem necessidade, pode prejudicar a sexualidade e a perda de massa óssea, levando à osteoporose. Também pode causar fraqueza?, alerta a endocrinologista, lembrando que toda medicação tem seus riscos. Por exemplo: uma pessoa com histórico familiar de câncer ou trombose ? portanto, com predisposição ? pode precipitar a ocorrência da doença com o uso indevido de hormônios. 

A procaína também estaria sendo usada, indevidamente, para deixar as pessoas mais jovens ? e se sentirem assim. ?Esse anestésico já foi banido para uso antienvelhecimento porque causa sensação de bem-estar e dependência. Além disso, pode provocar convulsões?, diz a secretária geral da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, Ana Lúcia Vilela. Como atua diretamente no sistema nervoso, se aplicado desnecessariamente ou em dosagem acima da recomendada, pode causar insensibilidade da pele e hipotensão arterial. ?A dose tem que ser calculada, religiosamente, pelo peso. Mas aplicam superdosagens, sem critério, que podem provocar queda brusca da pressão e até mesmo a morte?, destaca o presidente do CRMMG.

Vitaminas e antioxidantes também são contraindicados pelo CFM. Segundo João Batista, há muito tempo está desacreditado que dosagens extras de vitaminas evitem gripes, ajudem no crescimento ou estimulem o interesse sexual. ?A quantidade necessária é tão pequena, que é facilmente obtida pelos alimentos. Entretanto, o uso excessivo de vitamina A, por exemplo, pode causar descamação da pele e inflamações, enquanto a K pode engrossar o sangue. No caso das hidrossolúveis, como a B e C, o excesso é eliminado pela urina, não fazendo qualquer efeito a mais?, explica o médico. Já os antioxidantes, como o EDTA, são compostos que atuariam no metabolismo da célula, evitando seu envelhecimento. Mas ainda não há evidência de que a ação deles promova o rejuvenescimento. ?O risco é ter intoxicação, que pode causar, comprovadamente, distúrbios digestivos, de visão e de pele?, atesta João Batista.

A geriatra Ana Lúcia Vilela é enfática: ?O envelhecimento é um processo fisiológico, e não há como freá-lo?. A endocrinologista Ruth Clapauch reforça que o possível é envelhecer de forma saudável. ?Para isso, é fundamental fazer atividade física regular por toda a vida, pelo menos 150 minutos por semana, manter o peso e ter dieta rica em frutas, verduras e outros alimentos saudáveis.? Ela destaca que o processo não tem hora marcada e varia de pessoa para pessoa, de acordo com a genética e o estilo de vida. Quem se expõe muito ao sol, por exemplo, vai sentir os efeitos na pele mais depressa. ?Não tem mágica. Se a pessoa quer viver bem e ter longevidade saudável, com qualidade, tem que plantar desde a infância e cultivar os bons hábitos a vida inteira.?

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